quinta-feira, 19 de março de 2015

A bondade raspou os joelhos na calçada. Um time de futebol chutou e a bondade entrou redonda entre as traves, com gritos de gol, a bondade foi pega e cortada e destrinchada e exposta vendida em ganchos bandejas o sangue acumulado insistia em não coagular mesmo entrando nos buracos da gengiva expelido do mamilo mordido um vírus camuflado a bondade era muito querida. Ao levantar de manhã todos os dias, ao se deitar à noite todas as noites, nesse luxo que é ter uma cama e pernas grandes a bondade olha longe, sem inveja, segue contente porque todo mundo está contente. Ela é um satélite que rastreia a gente. Ela é o que insiste em não aniquilar, e guarda o sol na geometria, e guarda a arma na bainha, e resiste e enfim esgarça. Então gargantas roxas, rios de angústia, alegria transborda.
deve ser bom
ter um bicho grande
entre as pernas
você se move
com seu osso
na boca
e lhe lambe
entre os dedos
dos pés, ele dá
água e comida
e bronca e carinho
e você
late chamando-o
ou como
se ele
não
existisse

sexta-feira, 13 de março de 2015

A noite se repete
ainda não se dissipou
e já é de novo noite

meu cachorro
põe a cara na janela e assobia
uma carência que eu não posso resolver

muito menos enquanto como uma banana
porque acordo com um buraco dentro
na altura do estômago

Cachorro, banana, estômago
e estava tudo dormindo
agora há pouco, antes das janelas se abrirem

antes
das janelas se abrirem
tudo dormia comigo

e sonhava com viagens perdidas
ladrões, amigos,
assassínios que não aconteciam

Mas o dia lá fora tinha que entrar
atravessa as paredes e as mortes
estala entre os dentes da vontade

o dia insistente
já de novo ainda se repete
encontra a minha noite

um sol cobrindo a lua escura
aniquila todos nós
com luz

quinta-feira, 12 de março de 2015

O cachorro
avisa que existe
quando late

deixe que latam
os cachorros
que existam

que sejam
tão latidores
que latam tão alto

que todo
o universo
aumente

de volume
e o ouvido
do barulho

não ouça
mais o triste
uivo

sábado, 7 de março de 2015

oração

Era antes que eu tivesse
um crânio de cachorro
vivo fofo sobre
o meu pé e outro
deitado ali mais adiante
antes que eu dissesse
"meus cachorros"
e pudesse dizer de qualquer coisa
posterior a mim:
é minha

A vó arrancou do concreto do quintal
a planta crescia contra as crenças e chamava
comigo ninguém pode

era pecado tê-la
pois Deus tudo podia

Antes que eu tivesse um quintal
meu, alugado, e dois cachorros
meus, deles mesmos, e um concreto
quebrado

pela folhagem herege
cresce
décadas depois de morta
por minha vó, ela sim,
morta

pra sempre

Antes que eu tivesse visto
Deus
ser tédio e turbulência
arrancando
raízes sempre renovadas
e adubando de medo e dúvida
manhã e escuro consequentes

contra os quais

nada
pode

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Eu não conseguia viver com ninguém, então eu tive que me matar. A sobrevivência é nosso primeiro instinto, então eu tive que matar todo mundo. Lâminas, metralhadoras, os pais na mesa do almoço de domingo, o irmãozinho no berço, uma máquina assassina. Matei os vizinhos degolados, queimados, afogados, sem pressa e sem paciência, matei desconhecidos nas ruas. Delegacia de polícia. Usei gasolina, fósforo, sem imaginação, sem vontade de dar certo, sem preparo pro fracasso. Mas foi dando certo. Mas não teve fracasso. Dez, dez mil, dez milhões. Sete bilhões e meio de pessoas inocentes pisando esse chão, respirando esse ar. Não consigo viver com nenhuma delas.

Proliferação de animais carniceiros. Fim da emissão de gás carbônico, das usinas, fim da espera. Matei todas as pessoas do planeta. Sem arrependimento, sem desejo. Então os céus se abrem e Jesus Cristo desce em todo seu esplendor. Trombetas, arcanjos, prostitutas babilônias. Todos os alto-falantes do céu exaltam a sua glória. Ele é o caminho, a verdade, a vida. Só tem eu aqui, pra ver a sua segunda vinda. Meus pés se desprendem da força gravitacional. Passei a eternidade seguinte na presença de Deus. Deus, que é amor.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

crescendo
como as coisas
que não preveem
a própria morte

a árvore
se encheu
de galhos e folhas
e pequenos bagos verdes

e à força
dos ventos
e das chuvas e do centro
do planeta

ela pendia
ameaçando
desprender-se
do chão

o tronco dela
se tornou mais fino
as raízes
eu não sei

e com tesoura
e precisão
e com bondade
eu a cortei

os galhos novos
e pesados despencavam
entre os pulos
de alegria do cachorro

e a árvore
sem sinal
e mutilada
endireitando

quando enfim
pensei "salvei"
ela reta, em queda
para o alto

e o cachorro
focinhava as folhas
e os frutos verdes amontoados
sobre o chão

percebi
que a morte
da maior parte
da árvore

garantia
que o tronco e a raiz
continuem
crescendo

imprevisíveis
e se encham
logo
de novo

de um peso
insustentável
ameaça
a própria morte

então
tirei uma foto
do cachorro
que estava

entre os galhos
e as folhas e os bagos
muito
satisfeito