segunda-feira, 22 de junho de 2015

difícil e cheia de sucessos

Você
tava esperando um corte no filme
que te levasse sem corpo pra 2025 quando
uma crise de meia-idade colocaria em xeque
tudo o que você conquistou até aquele dia

e era tanta coisa
que ninguém nem poderia listar, a casa e os filhos
e a forma invejável por quem nasceu 15 anos depois
de você, mas agora
a existência parece supérflua, um rearranjo rápido
pode botar tudo no lugar certo e aí corta

pra 2035, 45, morre alguém
muito importante e de novo
a vida é lidar com perdas
apesar de tudo o que você ganha

prêmios internacionais de melhor caráter do planeta
reconhecimentos que sua mãe nunca pôde dar em vida
corta pra 2055
65
75

200 anos depois com sorte
muitos dirão mas que vida
difícil e cheia de sucessos
você teve
e que morte tão bonita, agora corta
pra 2005 flashback
antes de tudo já se preocupando

tanto tempo, e morrer

tanto

sexta-feira, 19 de junho de 2015

os dedos e as pontas deles me dizem que não tem
nada mais escuro que aquela parte do corpo em que o osso
desliza úmido entre os músculos se está preso
ou algo solto não importa é muito
muito de qualquer forma

escuro, nesse sentido o seu corpo é como
se estivesse submerso em bilhões de toneladas de água salgada
atmosfera peixes abismos os espíritos
passeando sozinhos eles estão
à espera de reencarnarem para de novo ter esse incognoscível
fronteira de duro e queda a estrutura
que nos mantém em pé

venham futuros
países
de medo, venham
vontades e mortes e sonhos
com pessoas queridas que se foram e festas
e torpedos, se um invento
fatal de cientistas e deuses atravessar com luz
o de mim
impossível insondável irreconhecível igual a todos
tecido escuro

pelo menos um alívio vai sussurrar nos ouvidos
uma vida em fuga pobre desta vez eu prometo
desaparecer porque nada mais será em mim mesmo
o mistério que deixa a gente
atentos

domingo, 3 de maio de 2015

A sinceridade escorrega
A profissão é um sabão
Depois que o futuro chegou
E não trouxe o futuro com ele
Vivo aqui neste passado
Esqueci de encontrar o presente

Que os erros aconteçam
Como aquela sujeira de unha do pé
Que por mais que você corte nega esfrega
O ponto preto continua no pé

domingo, 29 de março de 2015

Tenho especial interesse por aviões
que caem e um carinho
por aqueles que os derrubam
desde que não sejam
em terra os senhores
da guerra
mas por exemplo pilotos
ou copilotos
que se trancam nas cabines
e decidem que a queda
já vinha
acontecendo
o que faremos
é ir
de encontro a ela.

sexta-feira, 20 de março de 2015

na
Argentina
eu sentia muita falta
de comer
coxinhas
acarajés e pastéis
de Belém

eu sentia
muita falta
de comer mamão papaia
mas me contentava
milanesa com batatas
a parrilla
era como
o churrasco

os escravos africanos sequestrados no Brasil
comiam terra pra matar-se e saciar a saudade
ensinada nos livros de História como banzo

desde que o primeiro hominídeo olhou pra frente
na África e viu que seria gigante o seu horizonte
sentiu na boca o gosto ardente de refluxo do futuro

por isso
há milhões de anos
temos papilas que se tocam
apenas por períodos curtos

na maior parte do tempo
só temos a nossa própria
saliva

quinta-feira, 19 de março de 2015

A bondade raspou os joelhos na calçada. Um time de futebol chutou e a bondade entrou redonda entre as traves, com gritos de gol, a bondade foi pega e cortada e destrinchada e exposta vendida em ganchos bandejas o sangue acumulado insistia em não coagular mesmo entrando nos buracos da gengiva expelido do mamilo mordido um vírus camuflado a bondade era muito querida. Ao levantar de manhã todos os dias, ao se deitar à noite todas as noites, nesse luxo que é ter uma cama e pernas grandes a bondade olha longe, sem inveja, segue contente porque todo mundo está contente. Ela é um satélite que rastreia a gente. Ela é o que insiste em não aniquilar, e guarda o sol na geometria, e guarda a arma na bainha, e resiste e enfim esgarça. Então gargantas roxas, rios de angústia, alegria transborda.
deve ser bom
ter um bicho grande
entre as pernas
você se move
com seu osso
na boca
e lhe lambe
entre os dedos
dos pés, ele dá
água e comida
e bronca e carinho
e você
late chamando-o
ou como
se ele
não
existisse