quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

o doce perguntou
pro doce
qual doce é o doce
mais doce
o doce respondeu
pro doce
que o doce mais doce
é aquele que
acabou-se
um fio separa lá daqui
ou uma parede de vidro

ou um muro de concreto
ou um oceano indiviso

ou aquela membrana morna
entre os músculos e os órgãos

entre o não e o verde vivo
um passo que não alcança

*

no final tudo tem fim
começo enquanto isso

um fio que separa o sim
e um corte que não descansa

amálgama de bobagens
com picos de importância

ou campos de capim
ou idas sem bagagem

*

ou rastros improváveis
de quem não fez viagem

ou cascos encobertos
de musgos imóveis

um fim me espera ao fim
paciente e autoritário

paterno como um delfim
filial feito um velório

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

insônia

uma companhia solitária une todas as pessoas insones do mundo

é muito diferente, eu sei, ter insônia no leito da rainha ou com a cabeça mal acomodada sobre as pedras. mas no fundo dos olhos abertos um mesmo assombro define a raça humana

quem foi a primeira pessoa que, ainda sem esse nome, estatelou na madrugada sem nenhum motivo além de um eco crescente na cabeça que badala: eu? nunca vamos saber. mas essa pessoa, ou quase, é tão eu quanto eu posso ser, agora às cinco da manhã, com medo de que o dia acorde sem que eu tenha ido dormir

o que nos une, um dna de ectoplasma, se você quiser, são esses gritos do silêncio, esse vácuo que ricocheteia na cabeça. é, em suma, o medo de não morrer: então o cansaço não vai me levar ao descanso? quando os olhos se fecham, é uma bênção tão abençoada que a gente nem consegue perceber

recuperação da adolescência

andando há tanto tempo
neste acostamento

nem parece
que as solas do sapato furaram

o sol sobre a cabeça
dá voltas em volta da terra

e ela
se move

pra asfalto nenhum botar defeito.
roda

de hamster
escada rolante

esteira
em que homens de regata e mulheres

de rabo de cavalo
correm imóveis

até a eternidade.
o tempo já passou

de andar sem rumo em estradas pavimentadas. agora
eu passeio

no informe
o destino

é certo
quando acabam as palavras da bolsa, o canguru precisa percorrer todo o deserto e mais alguns quilômetros em busca de novas palavras

alcançadas as orlas dos mares do continente e caminhadas em círculos contínuos vários anos, ele enfim se recorda de que vive numa ilha imensa mas ilha

a tristeza da percepção de finitude e de prisão se junta à alegria revigorante da beleza dos horizontes da austrália isolada

então o canguru volta para casa desertos adentro, com novas palavras fecundadas no seu bojo

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

o nosso problema

o nosso problema é de sensibilidade. porque o excesso de história, o de imagens e o de informação nos levaram a uma anestesia dos sentidos físicos e não físicos. a pornografia leva à incapacidade do orgasmo por meio da repetição sem pausa do orgasmo.

o desafio é vencer a compulsão e o cansaço e ao mesmo tempo viver entre as suas causas e os seus efeitos. porque ninguém aqui tem a capacidade de voltar a fazer pão com as próprias mãos, e os que têm só o fazem porque contam com faxineiras pra limpar a cozinha depois, e as faxineiras comem bolachas recheadas e vivem também no cansaço e na compulsão. os que podem prescindir disso pertencem à classe social dos canalhas e não devem ser invejados.

o nosso problema é encontrar novas zonas sensíveis enquanto nos afogamos no entulho. o planeta já foi pras cucuias. o desafio é sobreviver e, mais, aflorar. conseguir o gozo no lixo.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

cada gripe ou joanete que arde
é um pouco de morte em meio ao combate

bem-vindo
fim dos dias
anunciado pelo horizonte
por uma brisa que passa

saudáveis de novo
voltamos a não perceber
a vida

que de todos os lados
ataca
impiedosa

perdidxs no campo entre os mortos
sem saber esperamos um novo vírus
uma nova enxaqueca inofensiva

bem-vinda