segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
the man i love
Um prédio de todos os andares, os carros a janela passando lá embaixo trazendo sons de ida e vinda aqui pra cima, e os homens recortados no site do outro lado: em camisas, sem camisas, se eu medisse todos os pênis desse prédio a altura alcançaria? Toma chá agarrado à cortina, crequelenta de semanas de porra seca, precisa lavá-la. Depois se veste e desce e anda e verbos até que dentro do escritório, de novo e sempre a rola dura apertando o coração, querendo escapar de calças e cadeiras, das horas de almoço, no escuro do cinema entrando em bocas e bundas e conchas de mãos, o amor é um picadinho, um chapéu na cabeça umedecido da garoa, vapor de virilha subindo e ofuscando a visão, volta pra casa, um casarão, para a esposa e os filhos e as cortinas, sobe nela uma vez por ano e se alivia quando engravida, medo nos becos, nos parques, na cidade que se acumula sobre si como um prédio de apartamentos cheios de picas moles dentro. Então acorda e bochecha a água branca e corre para a redação e datilografa o que chega da coluna policial, e não responde às brincadeiras e sai e encontra o cara do site e fode e volta resmungando "The man I love", dorme entre os irmãos na esteira sobre o chão e sente pressionando entre os quadris essa canção desconhecida, não sabe uma palavra em língua inglesa.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
O número de mortos cresce exponencialmente e ninguém mais consegue calcular. O governo lança um edital de contratação destinado a suprir o déficit de funcionários responsáveis pelo departamento de contagem de mortos. Mas o número necessário de novas contratações é muito maior do que o número de pessoas vivas na população. É que morre muita, muita gente. Então o governo emite um decreto em que obriga cada recém-morto a comparecer ao cartório mais próximo, emitir duas vias de seu atestado de óbito, sendo que uma fica consigo e outra deve ser depositada numa caixinha dourada. Quando o morto não comparecer no período estipulado, um juiz poderá acionar a força policial para constrangê-lo, se preciso utilizando violência física. O número de policiais cresce exponencialmente e ninguém mais consegue calcular.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
As ruas da cidade cobraram vida e resmungavam a cada passo ou roda de automóvel, raiz de árvore que saltasse da pele, e gritavam e choravam e xingavam tanto que fomos pouco a pouco saindo em direção ao campo, caravanas, onde o chão não nos negava e conseguíamos dormir, de algum modo sempre sobre ele. Mas então os arbustos e as gramas e toda planta nos quiseram expulsar, e fustigavam com os galhos e davam frutos que envenenaram nossos filhos e urticárias nos narizes, nas solas dos pés, até que nos venceram e nos juntamos e fomos em direção ao mar. À beira da praia vivemos muitos anos entre areias e cocos, conhecendo peixes e moluscos, cabelos salgados, até o dia que o mar abriu suas bocas de onda e, sem aviso prévio, nos tragou.
domingo, 7 de dezembro de 2014
por milhares milhões por
séculos as árvores não tinham
organismos que se alimentassem delas
depois de mortas empilhavam-se
umas sobre as outras
idênticas a si sem decomposição
se uma árvore cai na floresta
há bilhões trilhões de anos não há
ninguém para ouvir sua queda
ela faz algum barulho? aquelas
renascem hoje nossa busca por pedras
e fósseis previsões de futuro
para morrer não basta
estar vivo é preciso
deixar
ruídos
ruínas
vestígios
séculos as árvores não tinham
organismos que se alimentassem delas
depois de mortas empilhavam-se
umas sobre as outras
idênticas a si sem decomposição
se uma árvore cai na floresta
há bilhões trilhões de anos não há
ninguém para ouvir sua queda
ela faz algum barulho? aquelas
renascem hoje nossa busca por pedras
e fósseis previsões de futuro
para morrer não basta
estar vivo é preciso
deixar
ruídos
ruínas
vestígios
deus
deposita sobre o chão
moldado em pedra e sopro
prédios e outras construções
cidades cada vez enormes
a confusão dos idiomas
não bastou como vingança
sereis eternamente condenados
a babéis horizontais e quedas
vossas esquinas serão prisões
o solo não abraçará vosso cadáver
disse deus na segunda pessoa do plural
quando ficou bravo com os homens
deposita sobre o chão
moldado em pedra e sopro
prédios e outras construções
cidades cada vez enormes
a confusão dos idiomas
não bastou como vingança
sereis eternamente condenados
a babéis horizontais e quedas
vossas esquinas serão prisões
o solo não abraçará vosso cadáver
disse deus na segunda pessoa do plural
quando ficou bravo com os homens
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
a cidade vai ficar pronta
enquanto vocês dormem
podem ir
sonhei com esses versos, que eram cantados em forma de mantra ou refrão pop, vindo de lugar nenhum que eu me lembre. outra vez, há vários anos, sonhei com estes outros (dessa vez na boca de um cantor):
eu não quero alguém
não preciso alguém
eu não sou rural
enquanto vocês dormem
podem ir
sonhei com esses versos, que eram cantados em forma de mantra ou refrão pop, vindo de lugar nenhum que eu me lembre. outra vez, há vários anos, sonhei com estes outros (dessa vez na boca de um cantor):
eu não quero alguém
não preciso alguém
eu não sou rural
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
O jardim das plantas ordinárias
fôssemos todos
nós a tempo todo
felizes e presentes
entre as pernas e as
esperas o jardim
das urticárias e das plantas
ordinárias se
esfacelaria
entre os olhos
peço
um pátio vazio
um terreno baldio
onde o mato
cresça
ao contrário
dos desejos
e por isso mesmo
o chão
floresça
inteiro
nós a tempo todo
felizes e presentes
entre as pernas e as
esperas o jardim
das urticárias e das plantas
ordinárias se
esfacelaria
entre os olhos
peço
um pátio vazio
um terreno baldio
onde o mato
cresça
ao contrário
dos desejos
e por isso mesmo
o chão
floresça
inteiro
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