terça-feira, 19 de janeiro de 2016
o fim constante
A vida é espera. Faltam três dias. Mas quando passam dois, antes que termine o terceiro, precisa esperar sua metade: o sol é lento no céu. A enfermeira traz o almoço, uma sopa rala. Antes que ela traga, você precisa acordar. E nem dormiu. Então precisa: dormir, acordar, comer, digerir e morrer. E não consegue fechar os olhos. Sob as pálpebras, estão sempre abertos. De repente, como se piscasse, tudo acontece: o terceiro dia chega e já está quase no fim. A vida é esperar o fim da espera. Meia-noite, madrugada, o quarto dia acorda. O tempo não se importa.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
devir animal
Acordado agora, uma tira pra fora da boca / sou um mágico / oito metros de tripa oca se desenrolando / e são mais oito. A cada dia, oito metros de esôfago crescem pra fora dos dentes e dos lábios. Já anda com um carretel, vai pro trabalho, umedece ou a mucosa racha. Tem quarenta anos de idade, oitenta metros de esôfago (a cada dez dias faz uma cirurgia). Chega de negar. Agora chama “tromba” – eu, “elefante”. Uso a tromba pra roubar comida dos restaurantes. Quando a polícia corre atrás de mim, pisoteio as viaturas e saio pela cidade, savana.
domingo, 17 de janeiro de 2016
A grande purga de 1984
Começou na lâmina que me arrancou
Do intestino de uma mulher desacordada
Dos intestinos dela, e rápido
A reprodução desenfreada das células me trouxe
A este um metro e oitenta e três
Centímetros e cento e dez quilos
De células
Movediças
Atrapalhadas
Armadilhas
Apoteose
Da grande purga:
Eu sou a tripa;
O tempo,
A lâmina
Começou na lâmina que me arrancou
Do intestino de uma mulher desacordada
Dos intestinos dela, e rápido
A reprodução desenfreada das células me trouxe
A este um metro e oitenta e três
Centímetros e cento e dez quilos
De células
Movediças
Atrapalhadas
Armadilhas
Apoteose
Da grande purga:
Eu sou a tripa;
O tempo,
A lâmina
o dia que você pular
de paraquedas rumo ao chão
não esqueça de puxar
o piloto do avião
agarre o braço do comissário
enlace toda a tripulação
leve as asas pra cair
o trem de pouso e o timão
o dia que você pular
não desista no caminho
não queira encontrar saudade
nem virar um passarinho
não mire numa cidade
nem na casa do vizinho
não espere encontrar o chão
porque ele pode não vir, não
de paraquedas rumo ao chão
não esqueça de puxar
o piloto do avião
agarre o braço do comissário
enlace toda a tripulação
leve as asas pra cair
o trem de pouso e o timão
o dia que você pular
não desista no caminho
não queira encontrar saudade
nem virar um passarinho
não mire numa cidade
nem na casa do vizinho
não espere encontrar o chão
porque ele pode não vir, não
Saturno
Que lindo você é
Gordo e cheio de anéis
Girando iluminado
Cercado de escuro por todos os lados
Invisível a olho nu
Mas enorme
Manchado de caneta hidrocor
Na página de um livro
Brinde da compra de chocolates
Quando eu era
Criança
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
os rostos
Um rosto de água
se agita debaixo
do rosto de terra
e dá para ele a cara
fértil que às vezes
você olha
Em volta, invisível,
meu rosto de fogo consome
os dias e as noites são carvão
arrancado pela morte das minas de trabalho
Enquanto vário e aéreo
flutua perdido um rosto
verdadeiro, feito
de ar, promessa
de vento
se agita debaixo
do rosto de terra
e dá para ele a cara
fértil que às vezes
você olha
Em volta, invisível,
meu rosto de fogo consome
os dias e as noites são carvão
arrancado pela morte das minas de trabalho
Enquanto vário e aéreo
flutua perdido um rosto
verdadeiro, feito
de ar, promessa
de vento
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
Eu disse que a noite era líquida. Ele não acreditava. Nadei pra longe e ouvi o nariz se afogando em borbulhas. Reconheci umas sílabas. "Que nada!"
*
Meus braços cansados e um medo de tubarões, são noturnos os terrores da noite? Li que eles comem às cinco da tarde. Deixo a cabeça meio erguida, pra que a noite não entre no meu nariz. E flutuo na superfície de quilômetros, escuro.
*
As horas antes do dia
se iluminam
com a mesma melancolia
do crepúsculo
Mas são mais frescas
derrotadas
as horas antes do dia.
*
Essa praia serve, porque agora o profundo acorda. Tenho medo de ser comido. A televisão me informa: tem animais caçando. O. Tempo. Todo. Desenho na areia uma silhueta do meu amigo afogado na noite. O dia é seco e chato. As ondas lambem as pernas dele e levam elas embora. Eu queria ser as ondas.
*
O planeta
você sabe
é simultâneo
a si mesmo
não conhece
o absoluto
escuro ou claro
tem uma face
esférica
voltada
pra todos
os lados
*
Deus
é luz
Estou
à sombra
do Pai
Por que
não Se
move
Por que
não some
Senhor?
E a luz
de Deus
distante
deixou
de iluminar
Agora
a nossa cegueira é mais pura
solitária
é só nossa
Era esse escuro
que você queria?
A noite, de novo
nos molha.
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