sábado, 16 de julho de 2016

o duro pulso do acaso vai dando lugar
pro músculo mole e macio - nem por isso

não quero querê-lo - pelo contrário -
encontro o que quero no sono entre as pernas

almofada - mucosa - convite de pérolas -
fluindo da flor - fechada - em caralho

- aberta - ela treme - em chão movediço -
e em contato - comigo - poliniza - o lugar
tudo o que sabíamos estava equivocado eis que agora
o que sabemos se alevanta um novo valor mais alto
eis que este tampouco nos importa e mais agora
antes que termine esta frase outro saber surge imponente
e tudo o que sabemos se descarta novo movimento

edifícios do saber vão se erigindo
desabam mal atingem a altura que parecia impossível
seus destroços caem em forma de novo prédio
um cachorro assiste a tudo a distância
se espanta por um tempo depois dorme e sonha
com afagos gatos fugindo coisas gostosas

sexta-feira, 15 de julho de 2016

vejo na tela do computador um vídeo de alguém que viu
uma baleia emergir devagar do mar azul
a luz do sol atinge até trinta metros de profundidade
abaixo o que a baleia vê e vai ficando
uma noite que não conhece o seco

crateras e rochas nas profundezas abissais
bichos desconhecidos o centro do planeta
se esfriando do outro lado um japonês pode estar vendo
o mesmo vídeo dessa mesma baleia

e olha em volta
a cozinha com louça suja de comida japonesa
uma vontade reprimida
de ir no banheiro ainda não agora

vontade de ser esses bichos que se bastam
nos seus ambientes matam e morrem
sem esperar que aconteça
nada além do óbvio

segunda-feira, 11 de julho de 2016

diário de quando tudo já virou diário

a poeta morta de trinta anos atrás previu tudo o que estes últimos trinta anos seriam

calhou de eu viver nesse tempo e agora tenho a idade que ela tinha quando se matou

e pela primeira vez em trinta anos as janelas não me atraem

que farei

com estes dedos esta tendinite este talento todo jogado pelo ralo

da psicanálise e do desejo assalariado

intenção de concatenações lógicas que farei sem deus meu deus sem morte

sem a finalidade inovadora dos blogues

perdido o bonde da geração penso ufa dessa me safei

agora ando no acostamento pensando tomara que quando eu chegar em casa

haja casa

destroços de parede pisoteados por renascidos dinossauros

e ovos que estalem emocionados manhã sentido da vida

seja tudo uma janela

domingo, 10 de julho de 2016

é tipo tocar piano mas uma hora vc toca e o som sai desafinado

vc pensa merda de piano mas não é culpa do piano vai ver e ta tudo certo com ele

é o seu dedo mas como é possível até dois minutos atrás eu tocava lindo saía tudo

lindo, sonata noturno sei lá que porra eu não toco piano

aí vc fica tocando triste feio pensando que bosta o piano a minha vida nunca mais vou produzir música melhor é morrer logo

aí se vc não morre continua tocando até que uma hora de repente AH! saiu uma sonata um concerto o caralho

aí vc fica feliz e pensa ufa e pensa yeah e toca toca toca

é tipo isso só que não tão fácil quanto parece

quinta-feira, 7 de julho de 2016

o tecido social

quem sou eu pra ficar costurando buracos?

estudar o surgimento dos estudos demográficos etc.

o presidente do brasil é um homem acovardado dentro do próprio terno

hordas de bárbaros fogem rumo ao passado

uma capa vermelha e um voo pra parar o movimento do planeta

e no entanto sem tudo isso eu lá teria esses livros que gosto tanto?

wi-fi paredes três cachorros sujando meu quintal

um quintal

sou um homem acovardado dentro do terno do presidente do brasil

os fantasmas das serpentes extintas se enrolam com raiva muda no meu perispírito

o universo é uma paca semiviva sendo deglutida

na primeira extremidade de uma jiboia grande, imperscrutável

segunda-feira, 4 de julho de 2016

tudo o que se escreve
o que se canta o que se dança não adianta

onze mil pessoas
marcharam em toronto
três milhões e meio
pelas ruas de são paulo

se somos
dez por cento
de sete bilhões
no planeta
faça as contas:
não tem
regra de três
que te traga de volta

nem pronome
oblíquo átono
que sustente
tanto nome à revelia
em certidão de óbito

textos de luto
poemas fúnebres
foda-se

gritar
não esqueceremos
de vela na mão
nós esquecemos

pesquisadoras da mesma universidade em que você foi morto
encontraram oitenta e seis bilhões de neurônios no cérebro humano

bem menos
que os cem bilhões
que acreditávamos ter

tivéssemos
trilhões ou mais, talvez
soubéssemos dos assassinos
até a preferência
do almoço da família um dia antes
de abaixar as suas calças, de te dar
de bruços, de graça, pra noite, pra sempre

mães de todos os continentes choram filhos mortos
saturno mastiga a gente antes do futebol de sábado
no sábado encontrarei amigos e seu nome passará

entre uma mordida e outra
a língua desvia-se dos dentes

ninguém te soletra no entretempo

estatísticas tecem a rede que prende
o anjo que olha as ruínas do foda-se
outras letras com seus nomes vão morrendo
que nem os neurônios

com o tempo

eles não se regeneram

temporada de caça sempre aberta

no escuro os viados se encontram nos campos

pululam a última da lady gaga

e quando se tocam a luz que sai do corpo

deixa a gente exposta acende várias lâmpadas

o nome disso tudo não tem nome

chama sinapse fluorescência

diego vieira machado

etc.