quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

êxodo

deus
ou freud
ou a indústria farmacêutica
abriram um espaço seco
entre eu e o desespero

corram
caravanas de hebreus
com seus filhos e seus velhos lentos
antes que o mar se canse
ou cresça
ou desobedeça

os cavaleiros do mal
se afogarão com certeza
num castigo bem dado

(mas quem explicará que a ira
a indiferença ou a impotência
também condenem a inocência
dos cavalos?)

sábado, 27 de janeiro de 2018

os aplicativos não conectam com ninguém.

você e você ficam se olhando, olhos nos olhos, através da câmera.

você é sempre uma versão de você. o seu desejo é quase sempre uma versão de você.

admirando a minha própria forma física fixa em pixels.

os aplicativos são um espelho d'água.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

um nome nada singular

passada a vida
aos filhos às tarefas da cozinha

agora pinta quadros
dados como cria de gata

estradas de terra cercadas de flores
correm cavalos apenas imaginados

com pincéis sem jeito
anatomia falha

espalha sua obra assinada
um nome nada singular

quando termina outro bicho
bruto e belo querendo sair da tela

ao lado do saco de biscoitos
no silêncio da sala arrumada

sente o trote no peito
inspira a fumaça levantada

e abre passagem
para outra cavalgada

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

se você viesse agora
eu não pegava nem largava
eu não temia nem pedia
eu não me dava nem negava

quando você vier
faça o que fizer

não deixe de vir
nem me deixe decidir
o doce perguntou
pro doce
qual doce é o doce
mais doce
o doce respondeu
pro doce
que o doce mais doce
é aquele que
acabou-se
um fio separa lá daqui
ou uma parede de vidro

ou um muro de concreto
ou um oceano indiviso

ou aquela membrana morna
entre os músculos e os órgãos

entre o não e o verde vivo
um passo que não alcança

*

no final tudo tem fim
começo enquanto isso

um fio que separa o sim
e um corte que não descansa

amálgama de bobagens
com picos de importância

ou campos de capim
ou idas sem bagagem

*

ou rastros improváveis
de quem não fez viagem

ou cascos encobertos
de musgos imóveis

um fim me espera ao fim
paciente e autoritário

paterno como um delfim
filial feito um velório

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

insônia

uma companhia solitária une todas as pessoas insones do mundo

é muito diferente, eu sei, ter insônia no leito da rainha ou com a cabeça mal acomodada sobre as pedras. mas no fundo dos olhos abertos um mesmo assombro define a raça humana

quem foi a primeira pessoa que, ainda sem esse nome, estatelou na madrugada sem nenhum motivo além de um eco crescente na cabeça que badala: eu? nunca vamos saber. mas essa pessoa, ou quase, é tão eu quanto eu posso ser, agora às cinco da manhã, com medo de que o dia acorde sem que eu tenha ido dormir

o que nos une, um dna de ectoplasma, se você quiser, são esses gritos do silêncio, esse vácuo que ricocheteia na cabeça. é, em suma, o medo de não morrer: então o cansaço não vai me levar ao descanso? quando os olhos se fecham, é uma bênção tão abençoada que a gente nem consegue perceber