sexta-feira, 7 de novembro de 2014

lendo o poeta que ninguém leu

cheguei
meia hora atrasado no trabalho
com desculpas de vazamento no banheiro
e carta problema meu nome no serasa

agora olho as mesas vazias
da redação depois que as revistas todas fecharam
e escuto outros colegas
falando de política de um jeito que desprezo
enquanto isso fico lendo
o poeta que ninguém leu

e que morreu anônimo
e teve uns versos resumidos
pelo garimpo dos parnasianos de hoje em dia

nós
inconformados
com a sobreposição dos estratos minérios
que nos veem como partículas de minérios
e não como seres complexos que amam odeiam
cedem seus corpos aos patrões e pensam em política
em poesia e no serasa

que ninguém me leia nesta vida
não importa
os ossos e a carne de eróticos a erodidos
vão ser lidos pelos átomos
de um planeta cego
imenso glóbulo

Papai era um monstro

lembro bem do dia em que descobri
que papai era um monstro

#

a cama dele tinha quebrado no meio
e o colchão estava esmagado no chão

#

os sapatos eram cortados nas pontas
por onde saíam os dedos dos pés monstruosos

#

a escova de dentes era muito grande
e dela pingava uma gosma verde

#

fui juntando todas essas pistas e descobri:
papai era um monstro

#

à noite era muito perigoso dormir
porque ele podia abocanhar minha perna

#

então eu fiz uma armadilha pra ele

#

papai ficou preso naquela arapuca
e não conseguia sair

#

todo dia eu sentava na frente dele
dava comida e escutava ele falar coisas medonhas

mas ele não conseguia me alcançar
com sua boca e suas garras

#

muitos anos se passaram
até que eu resolvi soltar ele da prisão

#

hoje, papai está bem mais manso
e eu, que cresci, também virei um monstro

#

todas as noites a gente janta junto
e cada vez é um que cozinha e lava a louça

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

a bola de neve do demônio

Uma sombra passou diante dos olhos e foi sugada pela distância. Quando olhou pra baixo, sua sombra não estava mais ali. Saiu correndo atrás daquela que pensava ser ela, e que devia ser, porque todas as pessoas têm suas sombras presas no chão, grudadas nas paredes, nadando diluídas na água. A luz do sol alto queimava os prédios e o asfalto. A sombra fugida era veloz e nunca mais foi vista.

Todas as sombras passaram diante dos olhos. Como se um ralo aberto de luz tragasse elas. E as pessoas correram atrás de suas sombras e se amontoaram nas esquinas, várias morreram pisoteadas. Notícia que não daria em nenhum jornal. Os jornalistas, correndo atrás de suas próprias sombras, não compareceram às redações. O dono do jornal estava em sua sala acolchoada e não percebeu nada.

Ninguém é mais rápido que a escuridão. Nem eu. Em algum lugar incógnito, as sombras de todo o mundo se acumulam, se amontoam e formam um novelo escuro e crescente. A bola de neve do demônio. Que vai nos soterrar quando estivermos, dia claro, procurando no chão a noite que vem do alto.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

escola da vida

mas o pior de tudo
é quando você percebe
que há fatos e pessoas movendo-se
em torno uns das outras
e te deixam no canto da quadra
sem a bola sem amigos
esperando dar o sinal
de volta pra sala

as coisas acontecem
e são acontecidas
mas nem sempre os meninos
querem você por perto

criança eu inventei de um dia
conversar com as formigas

elas não paravam pra ouvir
e ainda assim meus primos riram
me repreendendo dizendo que o que eu fazia
era coisa do demônio

tentei escrever um poema que transformasse a realidade e não deu certo

é triste quando você não consegue
dizer o que pensa
e ao dizê-lo mudar os fatos
e ao mudá-los melhorar as coisas

que talvez nem possam
ser melhoradas e os fatos
não possam ser mudados
e os pensamentos não possam ser ditos

então não deveria ser triste
porque bem dizia a minha avó
"o que não tem remédio
já está remediado"

as coisas os fatos o pensamento e as palavras
tudo remediado

Canção de ninar o desespero

É mais fácil imaginar o fim
do mundo e da água
e dos pandas
da paciência

do que o fim do capitalismo
e das paixões pelas bandeiras e
do asfalto impregnado
no chão no coração

é bem mais fácil
que tudo isso
passar pelo fim da vida de indivíduo
corpo nome
tanta gente já passou
sem que o mundo
a grana
os ursos pandas
acabassem

Dorme, criança
enquanto houver saliva na garganta
enquanto a cruz assombra
os pesadelos com caravelas e navios negreiros
soberanos nas fronteiras

Dorme e sonha
com a cara gorda de um panda
finado, macio, companheiro

Depois acorda

sábado, 1 de novembro de 2014

raquel não ansiava por casar-se
quando ofereceu água ao homem e aos camelos
como ia ela saber que era servo de abraão
e que sua generosidade e até presteza em dar
de beber a um estranho eram sinais
plantados pelos anjos para que sua família
a entregasse em viagem matrimônio a isaque?

também eu não ansiava ser
solteiro nem casado nem tampouco
chegar aos trinta anos convicto
da minha homossexualidade vacilante e num estado
da república federativa onde é iminente
a crise hídrica

se vir camelos e um homem
na rodovia raposo tavares com túnica
sedento certamente oferecerei a eles
a água que for possível

mas os sinais dos anjos do senhor
mudam a cada momento só a sede permanece
a mesma através dos estados civis e do tempo